Hospital privado e unidade de medicina molecular operacionais em 2017

UReumatologia 3Foram ontem assinados os dois contratos de promessa de compra e venda de terrenos no Tecnoparque, na Lagoa, para a instalação de dois novos espaços de saúde: o Hospital Particular São Lucas e o Instituto para o Diagnóstico e Terapêutica dos Açores.
Dois espaços independentes mas que se complementam, tal como explicou o presidente da ISOPOR, Luís Metelo, na assinatura dos contratos-promessa com a Câmara Municipal de Lagoa.
O Hospital Particular São Lucas, um projecto que rondará os 16 a 18 milhões de euros, será uma unidade bi-modular, ou seja, apresenta-se como um hospital generalista mas também como uma unidade de cuidados continuados e de convalescença. O Hospital privado vai apresentar entre 35 e 43 especialidades médicas e pretende ser uma “unidade de excelência” com 20 quartos de internamento, 2 salas de cirurgia convencional e uma de cirurgia em ambulatório, unidade de cuidados intensivos, atendimento permanente e meios complementares de diagnóstico.
Uma unidade hospitalar que pretende apostar no turismo de saúde e onde o mercado alvo são, obviamente, os micaelenses mas também os habitantes das restantes ilhas dos Açores e os emigrantes na diáspora nos Estados Unidos da América. António Batista, responsável pelo Hospital acrescentou que, sendo a medicina nos Estados Unidos “muito cara, queremos chegar à diáspora e vamos aproveitar os mercados onde a SATA faz operações. Estes mercados são os ideais”.
Questionado sobre se seria este um investimento de risco, dada a situação económica do país e da região, António Batista entende que não e explica que além da população local e do turismo de saúde há ainda a possibilidade de atenderem as pessoas com seguros de saúde que até agora têm de se deslocar ao continente para realizar exames e tratamentos. “Aqui em São Miguel já há quase 3.500 apólices de seguros de saúde e vão desenvolver-se. Com o hospital montado as companhias de seguros vão poder fazer mais seguros e estas pessoas que hoje em dia vão ao continente ser operados podem estar sossegados porque vão ter aqui bons cuidados e boa equipa médica”, salientou.
O responsável pelo projecto do Hospital Particular salienta que vão ser implementadas diversas áreas de actuação, inclusive na área cardiovascular “que não estava prevista no primeiro projecto mas vai ser incluída agora, vamos ter também consultas e operações e vamos ter 3 blocos operatórios, blocos híbridos, com tudo digital”, salienta.
O Hospital terá também uma unidade especializada no acompanhamento de pacientes com Alzheimer e pretende ser um “hospital de recuo do Hospital do Divino Espírito Santo. Os doentes são operados e vêm recuperar no nosso hospital” e para tal deverá ser celebrado um acordo com a Secretaria Regional da Saúde “e o secretário regional está aberto a isso”. É uma hipótese, refere António Batista que esclarece que “se não for possível, estamos à disposição da região”.
O responsável refere que gostaria de ter investidores dos Açores no projecto, que actualmente só tem capitais nacionais, e mostrou-se satisfeito por ter sido dado o primeiro passo para o arranque do projecto que vai aproveitar o próximo Quadro Comunitário de Apoio 2014-2020. “Sendo a candidatura aprovada, arrancamos com a obra em Outubro de 2014, que terá a duração de 2 anos e 3 meses, e estamos a prever o início em 2017”, salientou António Batista.

Isótopos da polémica
A par do Hospital Particular São Lucas também vai surgir no Tecnoparque a unidade de prestação de cuidados de saúde com métodos e técnicas de medicina nuclear e uma unidade de produção e distribuição de radioisótopos, por parte da empresa ISOPOR-Isótopos para Diagnóstico e Terapêutica.
Luís Metelo, presidente da ISOPOR, explicou que o projecto contempla duas unidades de prestação de serviços e uma unidade de produção de isótopos que permite o funcionamento das duas unidades de prestação de serviços e outras actividades como por exemplo a exportação. “A génese da criação desta unidade é permitir que as duas unidades de prestação de serviços em medicina nuclear possam funcionar numa lógica de autonomia e não de dependência dos isótopos que são fundamentais para o funcionamento da medicina nuclear”, explicou Luís Metelo.
O projecto, que começou a ser desenvolvido no início de 2008 e que foi classificado com um Projecto de Interesse Regional – PIR em Janeiro de 2010, estava inicialmente previsto para ser instalado no parque Tecnológico da ilha Terceira “mas tal não foi possível em termos práticos”, já que o Parque Tecnológico da Terceira seria implementado “num futuro próximo mas o parque não existe”.
Sendo assim a ISOPOR decidiu manter uma unidade de prestação de cuidados de saúde em medicina nuclear na ilha Terceira, que deverá ser instalada ainda este ano, seguindo-se depois São Miguel. Mas para tal será necessário reformular o projecto “que não é da Terceira nem é de São Miguel, é um projecto dos Açores e de interesse regional”, acrescentou Luís Metelo.
Para o responsável, a reformulação passa apenas pela execução prática da implementação “de algo que ia ser ali e vai acontecer acolá. O que vai acontecer é uma realidade diferente e que teve de ser adaptada. Efectivamente o que foi acordado não foi isso e tem de ser reformulado, actualizado, mas parece-me que não haverá razões para prever qualquer dificuldade em relação a isso. O projecto mantém-se. O projecto só ganhou em dimensão, amplitude, abrangência, não teve nenhuma alteração da filosofia, mantém-se de interesse regional, focalizado na medicina nuclear, com as competências e objectivos que tinha e acrescentou-se um” que é a parceria com o Hospital Particular São Lucas. Neste sentido a ISOPOR estabelece a oncologia e cardiovascular como as principais áreas de actuação numa unidade “de excelência que terá muito pouco paralelismo pelo mundo fora”.

O que é medicina nuclear?
A medicina nuclear permite fazer uma detecção precoce das patologias, “permite estabelecer um estádio preciso da doença e quando temos informação precisa daquilo que o doente tem, temos capacidade de exercer terapêutica direccionada e personalizada”. É como vai funcionar a unidade de cuidados de saúde, que terá enormes implicações “em termos de eficácia, de resultado final para o doente mas também claramente nos dias que vivemos, temos de pensar numa lógica de poupança de recursos. Sabemos que são finitos e se os soubermos utilizar bem e sem gastar mais do que é preciso, conseguimos tratar mais doentes. Isto é que é o objectivo fundamental”, explicou Luís Metelo.
“A medicina nuclear é uma ferramenta muito importante e polivalente porque com produtos diferentes podemos fazer coisas diferentes em patologias diferentes. É um conjunto de técnicas absolutamente enorme. Quando temos a unidade de produção de isótopos, que é uma fábrica de isótopos medicinais, e se entendermos que a prioridade é a área X, desenvolvemos isótopos para aquela área, se entendermos que é a área Y desenvolvemos para aquela área, e não estamos limitados porque a ferramenta e know-how está lá”, explicou.
Os isótopos são produtos radioactivos, mas o responsável pela ISOPOR salientou que “os nossos equipamentos são tão delicados, tão sensíveis que conseguem trabalhar com uma quantidade absolutamente mínima e por isso também temos exames em pediatria”, concluindo tratar-se de uma terapêutica “inócua”.
A medicina nuclear “não tem nada a ver com a radiologia” que apresenta informação morfológica, mas noutras patologias pode ser fundamental pois incide ao nível molecular. “Há uma célula que começou a trabalhar mal ou de forma diferente mas se utilizarmos técnicas morfológicas, só vemos alterações de forma. Isto acontece após o trabalho celular, começou muito antes do que conseguirmos ver com as técnicas de imagem morfológica” e daí permitir actuar com alguma antecedência nos problemas.
Luís Metelo dá um exemplo de como funcionam os isótopos “que emitem energia e o organismo vivo não sabe a diferença entre elementos estáveis e elementos radioactivos, que emitem energia. Se emitem energia e se tivermos aparelhos que detectam essa energia, conseguimos vê-los. A medicina nuclear não passa disso. Não produzimos radiação, utilizamos a propriedade da radiação”, explicou.

Lagoa congratula-se

Para o Presidente da Câmara da Lagoa, João Ponte, o Tecnoparque pode ser um espaço de mais-valias para o concelho, promovendo desenvolvimento e criação de emprego, daí que se mostre “muito satisfeito” com a assinatura dos dois contratos-promessa.
Quanto à polémica em torno da Unidade de Produção e Distribuição de Isótopos, João Ponte disse não ver qualquer inconveniente n recolocação do projecto da Terceira para São Miguel e manifestou que “os fundos comunitários não são para uma ilha em particular e espero que o PIR não seja um PIT - Projecto de Interesse da Terceira” e disse esperar que a curto prazo “essa falsa polémica seja resolvida e quando há iniciativa por parte de empresas privadas e há um município que soube ter o engenho e a arte para conseguir captar esses investimentos, que essas lutas bairristas entre ilhas não sejam um impedimento ao desenvolvimento do projecto”, concluiu mostrando-se esperançado que o projecto seja agora aprovado para ser construído na Lagoa.